A Odisseia
Confesso que fui ver este filme sem grande entusiasmo. Antes mesmo de o filme ter estreado, já circulavam, pelas redes sociais, antevisões e previsões acerca da mais recente obra de Christopher Nolan...
Confesso que fui ver este filme sem grande entusiasmo. Antes mesmo de o filme ter estreado, já circulavam, pelas redes sociais, antevisões e previsões acerca da mais recente obra de Christopher Nolan que me tinham deixado desinteressado, não obstante o meu apreço pelo realizador. No entanto, dei por mim agradavelmente surpreendido, em certa medida.
É verdade que algumas das escolhas de actores mais controversas resultaram particularmente mal, mas é preciso salientar que as personagens mal atribuídas têm uma presença extremamente reduzida no decorrer do filme. Claro está, esta desculpa suscita ainda a pergunta, “então por que não escolher qualquer outro actor, mesmo menos talentoso, mas mais adequado ao papel em causa?”. É uma excelente questão; ainda que seja fã de Christopher Nolan, não consigo, em boa consciência, justificar as escolhas de Zendaya e Lupita Nyong’o para os papéis de Atena e Helena/Clitmnestra; Helena e Clitmnestra combinadas têm menos de dez falas e Atena praticamente se limita a aparecer ocasionalmente sem dizer nada, e, para esse papel, facilmente se encontraria uma actriz com mais perfil de deusa grega que Zendaya, não obstante a sua excelente participação em “Dune: Parte Um” (2021) e “Dune: Parte Dois” (2024). Por outro lado, Matt Damon conseguiu adaptar-se muito bem ao papel principal, apesar de ter sido um afastamento dos papéis a que estava habituado. Não menos impressionante é Robert Pattinson, que encarna tão bem o caráter duplícito da sua personagem que, até ao momento em que revela as suas verdadeiras intenções, parece ser uma personagem mais profunda e complexa. Já John Leguizamo, ainda que não fosse desadequado ao papel que representa, presta um desempenho muito pouco convincente, forçado e francamente inautêntico.
Os diálogos d’ “A Odisseia” são, infelizmente, inconstantes no que respeita à sua qualidade. Em grande medida, o guião está bem escrito, mas, em alguns momentos, inexplicavelmente, uma ou outra frase parecem fora de sítio, quase como se o guionista se tivesse comprometido a escrever uma versão final das mesmas falas, mas depois se tivesse esquecido de algumas delas, e as tivesse deixado em rascunho.
A decisão de Christopher Nolan de não permitir certos instrumentos na banda sonora do filme é outro ponto fraco d’ “A Odisseia”. Ao deprivar a música do filme dos instrumentos modernos que associamos à noção de “música”, esta funde-se e dispersa-se na cena, tornando-se apenas um ruído, praticamente indistinto dos sons ambientes.
O desenho da indumentária das personagens dá, mais uma vez, aso ao carácter inconsistente do filme: As roupas das personagens “civis”, que não usam armadura constantemente, não têm nada de particularmente objeccionável; no entanto, as personagens principais, às quais a maior parte do tempo é dedicada, usam quase exclusivamente couraças e capacetes, e é aqui que a qualidade vacila. Seria perfeitamente compreensível (e, dados os filmes anteriores de Christopher Nolan, expectável) que o filme se mantivesse fiel à descrição das armaduras do poema épico de Homero, mesmo que isso resultasse num aspecto visual menos atraente; seria igualmente compreensível que o realizador tivesse, ao invés, optado por armaduras visualmente impressionantes, talvez mesmo altamente estilizadas, em detrimento da fidelidade histórica e literária. Infelizmente, “A Odisseia” consegue, neste aspecto, reunir o pior dos dois mundos, e mostra-nos armaduras que, para além de se não perceber bem de que material são feitas, não são visualmente apelativas – excepção feita à armadura de Agamemnon, que é completamente disparatada em toda a linha, mas visualmente apelativa. Pior ainda, para além de feias e pouco convincentes, as couraças têm ainda mais aspecto de um adereço teatral que de um objecto funcional, e em momento nenhum isso é mais evidente que na representação inexplicável dos Lestrigões, que parecem envergar o género de disfarce de borracha barato e pouco convincente que era habitual em filmes de reduzido orçamento de finais da década de 90 e princípios da década seguinte, como seja “Steel – O Homem de Aço” (1997).
Talvez a questão de maior discórdia é a falta de fidelidade de um filme chamado “A Odisseia” ao poema épico de Homero do mesmo nome. Aqui, atrevo-me a sugerir, o maior pecado do filme não é nem nenhuma das muitas discrepâncias entre o poema e o filme, nem o conjunto de todas essas discrepâncias, mas antes o título do filme: em 1972, Maria Alberta Menéres publicou um livro intitulado “Ulisses”, fortemente inspirado n’A Odisseia de Homero, destinado a apresentar a obra clássica a uma audiência mais jovem, que se admite explicitamente nas primeiras páginas como um trabalho derivativo d’A Odisseia, e não um retrato fiel da mesma. Ao assumir abertamente a diferença entre si mesmo e a obra em que é baseado, “Ulisses” isenta-se da responsabilidade de ser uma adaptação fiel; ao invés, ao reclamar o mesmo nome que a obra seminal de Homero, “A Odisseia” convida a comparação com a obra original, da qual é uma adaptação francamente má. Se tivesse optado por chamar ao seu filme “Odísseo”, por exemplo (uma vez que “Ulisses”, ou, especialmente, “Ulysses”, convocaria igual comparação com a obra do mesmo nome de James Joyce), Christopher Nolan poderia ter concedido ao seu filme a liberdade de ser o que realmente pretende ser: não mais uma apresentação da história de como o rei de Ítaca, depois de ter conquistado, ao fim de um cerco de dez anos, a cidade de Tróia, conseguiu, eventualmente, voltar à sua cidade-estado, mas antes um retrato pessoal e sombrio do herói d’A Odisseia de forma mais agnóstica dos pormenores d’A Odisseia.
Não obstante os demais defeitos do filme, Christopher Nolan não deixa de impressionar pela sua realização, tirando, muitas vezes, grande partido de cenas em mar aberto e, sobretudo, de grandes paisagens intocadas pela modernidade, mas mesmo nesse aspecto a inconsistência que infecta todos os outros aspectos do filme se volta a manifestar: contrário ao que é apanágio de Christopher Nolan, que tinha conseguido, há décadas, retratar cenas de acção frenéticas e tumultuosas de forma fácil de compreender e de seguir em “Batman – O Início” (2005), mesmo apesar do estilo de luta do protagonista se basear em golpes curtos e próximos do seu corpo, apresenta-nos agora cenas de acção não só caóticas mas também, por vezes, estilizadas ao ponto de se tornarem irrealistas – flechas lançadas por arqueiros emulando pistoleiros que atiram com a arma junto à anca em vez de apontarem devidamente, por exemplo. Para além disso, a última cena de acção, que representa o culminar da trama, é desnecessariamente longa e francamente cansativa, especialmente ao enquadrar-se num filme com quase três horas de duração.
Em conclusão, não obstante ser uma francamente má adaptação da obra cujo nome toma, “A Odisseia” não é um “mau filme”, mas é certamente o pior filme de Christopher Nolan até à data. Dificilmente o poderia recomendar.
Pedro Polónio.


