“ANORA”, DE 2024
Com cinco prémios e uma nomeação adicional, “Anora” cobriu-se de glória na recente edição dos Óscares pelo seu retrato visceral do breve romance entre uma dançarina exótica de Nova Iorque e...
Com cinco prémios e uma nomeação adicional, “Anora” cobriu-se de glória na recente edição dos Óscares pelo seu retrato visceral do breve romance entre uma dançarina exótica de Nova Iorque e o filho de um casal de milionários Russos. Mas merecerá mesmo todas as alvíssaras que tem recebido?
A princípio, durante a primeira meia hora do filme, somos praticamente agredidos por uma sucessão rápida de cenas incompletas, planos de curtíssima duração e mesmo algumas escolhas algo duvidosas no que toca à fotografia do primeiro acto do filme, que se assemelha mais a uma montagem frenética que ao começo de uma trama. Durante esta cansativa e prolongada abertura, ainda que sejam estabelecidos alguns, mas poucos, dos elementos fulcrais da trama, o argumento do filme pouco ou nada avança. Não obstante, o primeiro quarto do filme está repleto de nudez parcial e cenas de grande cariz erótico que, ao desaparecerem quase por completo findo o primeiro acto, se revelam desnecessárias, e mesmo um truque
barato e vulgar para tentar reter a atenção de um espectador, que, face à mescla praticamente indiferenciada de imagens garridas e agitadas que não fazem progredir o enredo, seria desculpado por abandonar prematuramente o filme.
Subitamente, o tom do filme muda dramaticamente, substituindo as cenas incompletas e os cortes frequentes e desorientadores por cenas que, quanto mais não seja pelo seu contraste com as suas predecessoras, parecem agora demasiado lentas e artificialmente prolongadas. É a partir de agora que o enredo do filme começa a desenrolar-se, mas a um passo excruciantemente lento e que deixa por explicar grande parte da motivação de algumas das personagens. Quando, finalmente, a trama se resolve, não há um clímax narrativo nem nenhuma recompensa pelo investimento emocional do espectador nesta história ou nestas personagens, o que, previsivelmente, deixa o espectador insatisfeito. Não é que o enredo não faça sentido, nem que seja demasiado banal para ser interessante; simplesmente não tem uma conclusão que justifique o esforço retratado na colecção das cenas que o precedem.
No entanto, nem tudo é mau. O realizador Sean Baker, conhecido pelo seu estilo semelhante ao que esperamos de filmes independentes, sem deixar de tirar proveito dos meios tornados disponíveis pela riqueza que muda constantemente de mãos em Hollywood, esforça-se por nos apresentar planos, no mínimo, interessantes, seja pela posição da câmara ou pela maneira como esta se movimenta através da cena. Nem sempre as suas escolhas resultam bem, mas, pelo menos, há que reconhecer o esforço e o empenho do realizador. Há igualmente que reconhecer a riqueza da maior parte dos cenários apresentados, muitos dos quais são localizações reais da cidade de Nova Iorque.
Com muito pouca, se alguma, música original, a vasta maioria da música de “Anora” é música comercial, e quase sempre integrada na cena que acompanha, sendo, por vezes, explícito que a música que o espectador ouve é apenas a música que está a ser tocada durante a cena. Dito isto, “Anora” prima várias vezes pelo seu uso judicioso do silêncio, o que vem a ser quase irónico num filme tão barulhento quanto este. Barulho esse que é causado quase sempre pelas personagens, que falam umas sobre as outras, interrompendo-se uns aos outros ou desenvolvendo conversas paralelas a que é impossível prestar a mesma atenção que às outras conversas que decorrem durante a mesma cena, e invariavelmente se recobrem de profanidade desnecessária. O resultado é frequentemente cacofónico e cansativo, mas serve de contraste para enfatizar a importância do silêncio, quando é a vez deste último.
Ao concentrar-se, durante quase toda a sua duração, num grupo particularmente restrito de personagens, “Anora” não precisa de um elenco extenso e, ao invés, depende quase exclusivamente de apenas uma mão cheia de actores. Destes, Mikey Madison destaca-se por desempenhar o papel principal, da titular Anora, pelo qual recebeu o Óscar de Melhor Actriz Principal. No entanto, seja por virtude da actriz ou por defeito da personagem, ainda que, em uma escassa mão cheia de momentos do filme haja um claro amadurecimento pessoal e emocional da personagem, não deixa de parecer unidimensional durante todo o filme. Não é um mau desempenho, mas também não me pareceu desempenho que merecesse um Óscar. Por outro lado, Mark Eydelshteyn, que encarna o papel do alvo do afecto da personagem principal, retrata brilhantemente o filho imaturo e mal habituado de pais extremamente ricos, mas, infelizmente, não passa tempo suficiente no écran para fazer jus ao seu talento. Ironicamente, o único nomeado para um Óscar a não ganhar tal prémio por “Anora” é o actor Russo Yura Borisov, que, em minha opinião, revela mais talento que qualquer outro membro do elenco desde o primeiro instante em que aparece no filme.
Finalmente, a muito louvada última cena do filme vem a parecer um micro-cosmos de todo o filme em alguns segundos: Confusa, desnecessariamente provocante e francamente desapontante. Para além disso, parece ter, na melhor das hipóteses, uma ligação ténue com o resto do filme.
Em conclusão, não é que “Anora” seja um mau filme, antes pelo contrário; é apenas um filme que, não obstante as suas inúmeras distinções (ou talvez à luz delas), desaponta.
Por Pedro Polónio


