Não me levem as memórias
Era Jorge Luís Borges que dizia, de todos os instrumentos do Homem, o mais assombroso é o livro! O livro enquanto extensão da memória e da imaginação. Não há nada como um livro para guardar as...
Era Jorge Luís Borges que dizia, de todos os instrumentos do Homem, o mais assombroso é o livro! O livro enquanto extensão da memória e da imaginação. Não há nada como um livro para guardar as memórias. Foi esta a minha primeira ideia!
Porque nos lembramos? Esta é melhor pergunta do que aquela onde perguntamos, porque nos esquecemos? A memória é a obra-prima do cérebro e ela tanto nos orienta para o passado, como para o novo, o inesperado e até para o que vai acontecer no futuro. As memórias nunca desaparecem, estão sempre perto de nós. O problema é que nós não conseguimos descobrir o caminho para chegar até elas. Eu escolhi o caminho, escrever este livro!
Um livro que nasce no dia seguinte á morte de um amigo que tinha 93 anos. Ele era a minha memória da Cidade de Viseu! Sempre que queria saber alguma coisa do passado perguntava-lhe. Eu tinha saído de Viseu aos 18 anos e regressado com 66 anos. Quando pensei escrever um livro com as suas memórias, ele morreu! Escrevi este livro por isso, para não esquecer as minhas próprias memórias. Sobretudo aquelas que tem a ver com a minha cidade. Escrevi com a consciência de que a realidade e a imaginação são as duas faces da memória e deixei de me perguntar, porque me esqueço e passei a adotar uma outra pergunta: Porque me lembro?
Dedico este livro aos lugares e amigos que vivem na minha memória! Conto a história de um viajante que parte cedo da sua terra á procura de um tesouro, mas que depois regressa e vai encontrá-lo nos muros velhos do seu quintal na cidade a que chamou Porto Velho. O fim, que afinal era o princípio! O abraçar das memórias vivas e imaginadas, como se o meu cérebro fosse um Contador de Histórias.
Tudo começa nas memórias de um avô que combateu na Primeira Guerra e que ao regressar emigra para o Brasil. Memórias do amor pela música, pelo fado, a primeira música que ouvi ainda na barriga da minha mãe. Ela cantava-me as “Rosas Brancas”! A procura da Liberdade, aquela que Bob Marley dizia: “Se volta é porque a conquistei, se não volta é porque nunca a possuí”. A Liberdade cantada na Independência do Brasil pela Inconfidência Mineira, com gente que estudou em Coimbra.
Memórias de Fernando Pessoa, quando ele diz que nós temos os genes de Viriato e do Infante D. Henrique e esta é a sua cidade! O Mondego e a Cavalaria a unir estes dois homens, ambos a quererem o mar, uma partida para o mar que se festejou na Praça D. Duarte. Estava tudo escrito nas linhas das nossas mãos! Conto o meu regresso a Viseu, depois de 47 anos ausente. Aquele porto igual ao que deixei e só encontrei no Adro da Sé. Chamei-lhe Porto Velho! O lugar onde via o pôr do sol por detrás da Serra do Caramulo e sentado naquele cruzeiro. Lembrei os três bispos e um santo que foram maiores que a cidade, Diego Ortiz de Villegas, Miguel da Silva, Alves Martins e S. Teotónio…vi voar o João Torto!
Lembro sete amigos, o Eduardo e os Tubarões, o grande amante e embaixador de Viseu! O Liceu do nosso tempo, os professores, as disciplinas sem nota: O Padre Tavares (Moral); o Beethoven (Canto Coral) e o Pipa (Ginástica). Lembro a Fernanda Moreira, foi ao lembrá-la que aos 50 anos escrevi o meu primeiro livro; o Albano Martins poeta e que nos ensinava fazendo. Lembro as Festas dos Finalistas, a colagem dos cartazes para o baile, o baile e o livro!
Lembro o Cine Rossio onde começavam as noites, figuras como o Toninho Panelas, os Fiscais dos Isqueiros, a cultura dos bichos da seda, os banhos no Vouga e Dão. Lembro quando na Casa do Miradouro fizemos uma Rádio Pirata (Pop Norte). Quando visitávamos as adegas dos amigos, o Verde Gaio e o Amadeuzinho!
Lembro Viseu como Cidade Aeroespacial em 1965. Os dois amigos que lançaram os foguetões no Fontelo e no Campo da Aviação. Viseu nos caminhos da CEA e da NASA. Lembro outros amigos e entre eles o Fernando Assis Pacheco, o companheiro das noites cabo-verdianas. Foi ele que um dia em Barcelona, num restaurante chamado Sete Portas (7 Portes) me falou pela primeira vez das sete portas da nossa muralha Afonsina! Conto essa e outras aventuras com ele na Baía de Jorge Amado e nas cadeiras do Diário de Lisboa. Lembro Cabo Verde como a Terra da Música e a história do Mário Lúcio, uma figura genial!
Lembro por fim um Homem-Sábio que respondeu a algumas das minhas grandes dúvidas: Porque me acontecem tantas coisas boas, porque conheço gente tão interessante e lugares de encantar? Porque escrevo? Ele dizia-me: Tu sabes o que é sorte? É quando as nossas competências encontram as oportunidades. Umas sem as outras e nada acontecerá! As coisas só acontecem quando estamos preparados! Quem assim me falava era Rui Nabeiro…é com ele que acaba o livro…
Por Jorge Marques


