“Nuremberga”
A trama de “Nuremberga” (2025) não é original, e esta não é sequer a primeira vez que a mesma é adaptada ao cinema, mas é agora a vez de James Vanderbilt contar, à sua maneira, a história...
A trama de “Nuremberga” (2025) não é original, e esta não é sequer a primeira vez que a mesma é adaptada ao cinema, mas é agora a vez de James Vanderbilt contar, à sua maneira, a história verídica do julgamento de altas patentes do regime Nazi no rescaldo imediato da segunda grande guerra mundial.
Antes de mais, é importante salientar que este filme não pretende ser um retrato documental dos eventos históricos nos quais é inspirado, para desagrado dos estudantes entusiastas de história, mas certamente para agrado dos fans de cinema, para os quais sacrificar a exactidão histórica no altar da arte e do entretenimento só é um crime grave se apresentado como um documentário, que “Nuremberga” não finge ser. Não obstante, James Vanderbilt em- prega cuidadosamente imagens reais do período histórico que retrata, cimentando a credibilidade e autenticidade da história. Infelizmente, este é apenas um dos sintomas da reticência deste filme em se aliar
firmemente ao campo da verdade em detrimento da arte ou ao campo da arte em detrimento da verdade.
O elenco extenso de “Nuremberga” é encabeçado proeminentemente por Malek Rami, Russel Crowe e Michael Shannon, cada um dos quais trazendo consigo a sua marca pessoal, que se reflecte nos contrastes entre os seus desempenhos. Crowe retrata o Marechal Hermann Göring com uma mistura inquietante de afabilidade e uma constante ameaça iminente, Shannon interpreta o papel do juiz Robert Jackson com uma pose e precisão calculadas que, muito deliberadamente, não conseguem ocultar completamente a intensidade da sua determinação e Rami, depois de uma prestação algo ensossa em “007: Sem Tempo Para Morrer” (2021), transborda emoção em cada fotograma que ocupa; no entanto, frequentemente cai na tentação de exagerar as suas expressões, e contorcer as suas feições já de si notáveis em esgares hiperbólicos e irrealistas. Não obstante, o contraste entre os três transforma cada diálogo num exercício de esgrima, em que as personagens se revezam a atacar e defender, cada uma com o seu próprio método e estilo.
Sendo um filme de natureza dramática, deliberadamente pobre em cenas de acção cativantes, “Nuremberga” poderia facilmente ter cometido o erro de ser pouco mais que uma sucessão de grandes planos de cada um dos actores na sua vez de discursar, mas não; aos grandes planos seguem-se os planos abrangentes, aos planos que retratam os actores frontalmente enquanto estes argumentam, como se se dirigissem ao espectador, seguem-se os planos que relegam o espectador para uma posição voyeurista, observando uma personagem que nem se apercebe da nossa presença. Finalmente, quando é preciso retratar o estado de espírito de uma personagem à medida que esta atravessa um espaço, Vanderbilt não se poupa a planos mais ambiciosos como takes mais longos em que a câmara se desloca com as personagens com impecável coreografia. É também de destacar o excelente uso que é dado à luz, quer pela sua intensidade, quer pela sua cor, frequentemente usada para ampliar a sensação de claustrofobia de certos lugares onde o filme decorre, quase sempre provocando contrastes apelativos de luz e sombra sem nunca assoberbar o espectador com zonas do écran demasiado brilhantes ou partes da imagem demasiado escuras para serem claramente entendidas.
A música é empregue judiciosa e conservadoramente em “Nuremberga”, que prefere dar proeminência aos diálogos e sons ambientes a enfeitá-los desnecessariamente. As cenas musicadas frequentemente desfrutam da música como consequência de a mesma estar a ser tocada no local em que a cena decorre. Assim sendo, nas poucas ocasiões em que a música é acrescentada ao filme, o seu efeito tem ainda mais impacto, traduzindo ideias e emoções que as imagens sozinhas não consegui- riam. Mesmo assim, o filme sabe empregar igualmente o silêncio ou o quase silêncio, entrecortado apenas por sons ambiente ou uma meia-palavra, dita por algum efeito sonoro, que, para bom entendedor, basta.
Consequentemente, o filme tem uma lista de músicas empregues extremamente reduzida, com apenas sete itens, dos quais se destaca, pela sua obscuridade, o tema “Gloomy Sunday”, que foi proibido de passar na BBC durante várias décadas pela sua associação ao suicídio.
O andamento do filme é talvez a parte menos bem conseguida de “Nuremberga”. O primeiro acto procura equilibrar a apresentação menos cativante das muitas personagens do filme quase todas de uma só vez com as cenas mais dinâmicas e marcantes que contém, mas, durante a vasta maioria do resto do filme, a maior parte destas personagens é deixada de lado e trazida à ribalta só no último acto, deixando-as muito fracamente conectadas à trama a que pertencem, ao que não ajuda a extensão deste filme, que dura mais de duas horas. Ao centrar a narrativa quase exclusivamente na personagem de Hermann Göring, “Nuremberga” ganha preciosos minutos da excelente prestação de Russel Crowe à troca de cerca de vinte nomes que surgem no princípio do filme e no seu clímax, com pouca ou nenhuma noção de como transitaram do princípio do filme para o fim do filme ou razão pela qual o espectador se interessaria por eles. Finalmente, os últimos minutos do filme, ainda que historicamente correctos, ressoam com certos tópicos frementes da actualidade, mas, por isso, ao serem apresentados de forma sensacionalista e afastada de um contexto que defina a sua mensagem com mais exactidão, adquirem um certo ar de activismo político.
Não obstante as suas falhas, “Nuremberga” é um filme de enorme impacto e que demonstra, sem sombra de dúvidas, que mesmo um filme que possa ser, ainda que de forma demasiado simplista, reduzido à essência de “algumas pessoas discutem entre si”, se bem feito, pode perfeitamente não ter um único segundo entediante. Fortemente recomendado!
Por: Pedro Polónio


