ACOLHIMENTO FAMILIAR: A URGÊNCIA DE DAR COLO A QUEM PRECISA
Em Portugal, existem muitas crianças e jovens (quase 6000) que têm de sair das suas casas, por motivos que lhes são alheios, para poderem estar seguras. E, de um dia para o outro, o mundo delas muda:...
Em Portugal, existem muitas crianças e jovens (quase 6000) que têm de sair das suas casas, por motivos que lhes são alheios, para poderem estar seguras. E, de um dia para o outro, o mundo delas muda: deixam amigos, rotinas, pessoas de referência, cheiros, tudo aquilo que lhes era familiar. Num momento em que o chão desaparece sob os seus pés, surge o acolhimento familiar, não como uma resposta milagrosa e que vá reparar por completo tudo o que foi o passado destas crianças/jovens, mas sim como um gesto de profunda humanidade.
O Acolhimento Familiar constitui-se como uma medida tutelar do Sistema de Promoção e Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, que tem como objetivo prioritário diminuir a colocação de crianças em casas de acolhimento, que, por algum motivo foram retiradas do seu meio natural de vida, e privilegiar a sua integração em ambiente familiar. A ciência comprova-nos que é neste ambiente familiar salutar que a criança tem a oportunidade de se desenvolver de forma saudável e segura, enquanto a sua vida se reorganiza.
Comparativamente com a Europa, Portugal continua a ter um número reduzido de famílias de acolhimento certificadas, sendo que muitas destas crianças e jovens continuam a ser acolhidas em instituições. Apesar de conscientes que o acolhimento residencial é uma resposta essencial e válida, constituindo-se, por vezes, a solução mais viável para algumas destas crianças e jovens, torna-se urgente sensibilizar a comunidade para esta causa, para que cada vez mais crianças possam encontrar segurança, afeto e colo num ambiente familiar.
A equipa de acolhimento familiar procura dar apoio todos os dias tanto às famílias de acolhimento como às crianças, proporcionando o suporte essencial em todas as fases do processo. Ainda que o processo de candidatura e avaliação seja rigoroso, bem como o acolhimento possa trazer desafios e alguns receios, existe sempre uma equipa presente para acompanhar, orientar e cuidar.
Acolher uma criança é muito mais do que oferecer um quarto ou um prato de comida. É oferecer presença, é celebrar as pequenas conquistas do dia a dia, mas também é ter conversas difíceis e aprender a confiar. E são muitas vezes estas crianças que nos ensinam primeiro: ensinam-nos a ter paciência, resiliência, a ver para além do comportamento, a ouvir o que não se diz.
Com o tempo – sejam dias, meses ou anos – a temida despedida acaba por acontecer. E dói, porque é suposto doer, porque, neste período, foram criados laços e memórias. Mas estes laços e memórias não desaparecem, assim como não desaparece a certeza que se fez a diferença na vida daquela criança. E talvez seja isso que falta: mais pessoas dispostas a acreditar que podem fazer a diferença, por mais pequena que possa parecer. Não para sempre, não para substituir ninguém — apenas para ser família enquanto for preciso.
Inês Quadrado Lopes – Psicóloga Equipa Acolhimento Familiar Viseu Afetos


