Portugal não pode continuar a tratar 4,1 milhões de pessoas como invivíveis
“Os resultados do II Barómetro do Consumidor Sénior revelam uma contradição: uma geração ativa, digital, economicamente relevante e profundamente envolvida na sociedade continua a sentir-se pouco...
“Os resultados do II Barómetro do Consumidor Sénior revelam uma contradição: uma geração ativa, digital, economicamente relevante e profundamente envolvida na sociedade continua a sentir-se pouco valorizada e pouco ouvida. Portugal não pode continuar a olhar para o envelhecimento apenas como um problema, tem de começar a olhar para as pessoas mais velhas como parte essencial da solução.
Os resultados do “II Barómetro do Consumidor Sénior em Portugal” são claros: estamos perante uma geração com mais de “4,1 milhões de pessoas com 55 ou mais anos”, que representa cerca de 38% da população portuguesa. É uma população ativa, consumidora, digital, solidária, preocupada com a saúde e profundamente envolvida na vida das suas famílias e comunidades.
Mas há um dado que não podemos ignorar:
“73% consideram que a sociedade valoriza pouco ou nada as pessoas da sua idade”.
Apenas 8% entendem que a sua experiência e conhecimentos são bastante ou muito valorizados pelo mercado de trabalho. Além disso,
”27% afirmam já ter sido discriminados em razão da idade”.
Estes números não são apenas estatísticas, são um retrato do idadismo em Portugal.
O mais preocupante é que esta desvalorização não acontece apenas no mercado de trabalho…
Mais de 80% dos seniores sentem que os partidos políticos, as instituições e as políticas públicas prestam pouca ou nenhuma atenção às suas necessidades. A sua voz continua, demasiadas vezes, ausente dos espaços onde se tomam decisões que também determinam o seu presente e o seu futuro.
Ao mesmo tempo, o Barómetro demonstra precisamente o contrário daquilo que tantos estereótipos sobre o envelhecimento continuam a transmitir. “Os seniores poupam, apoiam financeiramente as suas famílias, viajam, conduzem, utilizam a Internet, fazem compras online, cuidam da sua saúde, participam na economia e continuam a ter projetos, desejos e capacidade de escolha.” Metade consegue poupar todos os meses e 51% ajudou financeiramente familiares ou pessoas próximas no último ano. É precisamente aqui que temos de mudar o discurso! Envelhecer não é tornar-se invisível, não significa deixar de contribuir. Ter mais idade não pode significar ter menos direitos, menos oportunidades ou menos voz.
Na Associação Stop Idadismo, defendemos uma mudança cultural profunda, precisamos de passar de uma sociedade que fala sobre as pessoas mais velhas para uma sociedade que fala com elas, as escuta e lhes reconhece capacidade de decisão.
A chamada “Economia Prateada” representa uma enorme oportunidade para Portugal. Todavia, não podemos cair no erro de reduzir as pessoas mais velhas ao seu poder de compra. O seu valor não está apenas no que consomem ou no que podem representar para a economia, está também na sua experiência, no conhecimento acumulado, na participação cívica, no cuidado que prestam, nas relações que constroem e na contribuição que continuam a dar às famílias e às comunidades.
Combater o idadismo é, por isso, muito mais do que combater a discriminação, é defender uma sociedade onde todas as idades contam (#PortugalParaTodasAsIdades | #AWorld4AllAges) .
Portugal precisa de políticas públicas para a longevidade, de empresas que valorizem trabalhadores de todas as idades, de serviços acessíveis e inclusivos e de uma comunicação social e institucional que abandone os estereótipos associados à idade.
Precisamos, sobretudo, de compreender que a idade não pode ser um critério para diminuir uma pessoa.
O II Barómetro deixa-nos uma mensagem que não podemos ignorar:
“há uma enorme distância entre aquilo que as pessoas mais velhas são e aquilo que a sociedade ainda pensa que elas são.”
É tempo de eliminar essa distância.
Uma sociedade para todas as idades não é uma sociedade que prepara o futuro das pessoas mais velhas, é uma sociedade que reconhece o valor das pessoas em todas as fases da vida.
José Carreira
Associação Stop Idadismo


